Hibridismo & Mestiçagem

Hibridismo & Mestiçagem

Introdução
 O hibridismo é o cruzamento de indivíduos de Gêneros diferentes, e o produto deste cruzamento recebe o nome de Híbrido. Quando os produtos destes cruzamentos apresentam comportamento reprodutivo semelhante aos das espécies que lhes deram origem e apresentam-se férteis, dizemos que são Mestiços.

A hibridação não se constitui um fato novo, nem mesmo uma descoberta de laboratório ou algo parecido, ela ocorre na natureza e se constitui um fenômeno espontâneo. A hibridação espontânea é provocada pelo desequilíbrio entre o número de indivíduos machos e fêmeas de determinado Gênero (escassez de um dos sexos) este fato tem levado ao surgimento de hibridações espontâneas como forma de preservação natural encontrada pelas espécies ameaçadas.

Temos observado na Mata Atlântica do Sul da Bahia o surgimento espontâneo provocado por desequilíbrio do meio ambiente de indivíduos Híbridos ou Mestiços dos Gêneros (Oryzoborus X Sporophila). Este surgimento é intenso em regiões em que a captura do Chorão macho (Sporophila leucoptera) mediante a prática predatória da “Pegada” provocou uma sensível redução dos machos desta espécie, levando as fêmeas em abundância a buscarem outras alternativas de reprodução, dentre elas, os Curiós (Oryzoborus angolensis) como forma de continuação do processo reprodutivo deste gênero.

A hibridação espontânea tem sido muito observada na natureza. Particularmente acho muito importante estas ocorrências do ponto de vista do surgimento de uma descendência com maiores condições de sobrevivência ao meio ambiente, que sofre mudanças constantes devido à ação do homem. Estas descendências, por serem mais resistentes, suportam melhor o meio ambiente que as geraram, podendo dar origem a uma nova espécie bem mais desenvolvida. Cada indivíduo envolvido na hibridação possui um conjunto de genes diferentes que são combinados em um novo ser, dando origem a uma nova genética diferente da de seus pais. Muitos embriões híbridos não se desenvolvem, aparentando falta de interatividade entre as combinações gênicas das espécies que os geraram, no entanto outros o fazem muito bem, inclusive superando as condições desfavoráveis, competindo mais tarde em condições de resistirem ao meio ambiente com as espécies que os geraram, principalmente por serem bem mais resistentes.


Os trabalhos de hibridação com o Curió tem sido muito pouco divulgados, acredito que por suas limitações, ou sejam: falta de compatibilidade genética entre os pares, quanto à possibilidade de acasalamento dos indivíduos de Gêneros diferentes; aceitação de um pelo outro, bem como os autos índices de mortalidade dos embriões durante a fase de desenvolvimento por incompatibilidade gênica dos pais. Apesar destas dificuldades, divulgaremos neste artigo as técnicas empregadas com sucesso na hibridação do Curió X Chorão (Oryzoborus angolensis X Sporophila leucoptera) e Curió X Caboclinho (Oryzoborus angolensis X Sporophila bouvreuil). Informo ainda ter conhecimento da prática de hibridações entre Curió X Coleiro-do-brejo (Oryzoborus angolensis X Sporophila collaris collaris).

Embora o IBAMA não recomende a prática das hibridações, e o faz alegando que os pássaros devem permanecer em domesticidade da mesma forma em que se encontram em vida silvestre, negando a estes extraordinários híbridos o competente registro, e ignorando a contribuição que os mesmos vem dando a genética das Criações Amadoristas, muito se tem feito no tocante à incorporação de genes portados pelos distintos gêneros envolvidos nas hibridações.

Pelo exposto, tenho praticado e recomendado à hibridação como forma de aprimoramento e construção genética do “Curió Doméstico”, pois através desta prática podemos incorporar à genética do Curió genes capazes de dota-lo de características desejáveis e em percentuais de sangue adequados a externarem os ditos caracteres.

A hibridação, em última análise, nos permite dotar um determinado indivíduo de caracteres não possuídos originalmente por uma das espécies envolvidas nos cruzamentos, poupando-nos tempo e investimento em cruzamentos seletivos aonde se buscam a seleção dos indivíduos portadores de características desejáveis para através de cruzamentos dirigidos fixa-los à prole por hereditariedade. Vale ressaltar que muito se tem a aprender nesta área. A grande incidência de indivíduos não férteis ou temporariamente nestas condições se constitui uma grande limitação ao avanço das hibridações aqui referidas, contudo, esperamos conhecer melhor todos os aspectos envolvidos nas hibridações no sentido de minimizar as dificuldades hora existentes em relação à fertilidade dos F1 (Indivíduos portadores de ½ sangue de cada gênero, envolvido no cruzamento).
Método Para Prática do Hibridismo - Imprinting
 É de fundamental importância o conhecimento dos mecanismos que imprimem nos pássaros as características de sua própria espécie. Eles precisam conhecer o seu padrão de comportamento e isto incluem aspectos instintivos e até mesmo, aspectos sociais aprendidos no convívio com os seus semelhantes.

É necessário que cada pássaro forme a sua própria identidade, mediante o aprendizado dos hábitos e costumes de sua espécie, para que se comporte como tal. Dentre estas características encontramos o canto como sendo uma das mais importantes, no entanto, não é o canto a única característica comportamental que irá definir determinado pássaro em relação ao padrão de sua espécie.

É que diversos pássaros vetorizam o canto de outras espécies e os adotam para o resto de sua vida, sem que a ela pertençam. É nesta capacidade de aprender o dialeto de outras espécies, bem como a aquisição de seus costumes, que a natureza em certos casos tem garantido a preservação das espécies. Contudo, é fundamental que determinado pássaro adquira os conhecimentos necessários a definir-se como sendo desta ou daquela espécie, e sabemos que o canto por se só não os define, portanto os pássaros devem adquirir um conjunto de conhecimentos capaz de formarem a sua identidade mediante o mecanismo conhecido como Imprinting, que nada mais é que a estampagem na mente destes comportamentos.
O Canto & a Côrte
 Sabemos que no ritual de acasalamento o cortejamento da fêmea pelo macho é feito mediante o uso de elementos sonoros, o canto é aliado às exibições da plumagem e posturas em que o macho exibe a sua plumagem efetuando uma espécie de dança nupcial. Este comportamento sexual é especifico de cada espécie cujo grau de exigência da fêmea é tão maior quanto maior for à capacidade do macho em exibir os seus dotes pré-nupciais no qual é reconhecido e aceito pela fêmea. O sucesso da corte está intimamente ligado ao seu bom desempenho, quanto ao uso eficiente destes elementos, aonde o canto desempenha papel fundamental.
Imprinting & Cortejamento
 No Hibridismo é indispensável que os dois gêneros distintos que se pretende a reprodução, sejam dotados de afinidades genéticas para que ocorra a fecundação do ovo, e mais, é fundamental que a côrte do macho seja aceita pela fêmea como sendo de seu próprio gênero, e isto envolve a aceitação do canto do macho pela fêmea no caso desprovida de reação sexual para aquele canto, que é de outro gênero.

É indispensável que ambas as espécies envolvidas em acasalamentos híbridos possuam o mesmo Imprinting, caso contrário à corte não será aceita pela fêmea de gênero diferente que, exigirá a corte de sua própria espécie e isto envolverá a troca do canto do macho pelo canto do gênero da fêmea ou a aceitação desta pelo canto do gênero do macho.

O plantel para hibridações deverá ser composto por dois ou mais gêneros distintos que se pretende reproduzir, sendo que estes gêneros deverão possuir o mesmo Imprinting, caso contrário, não ocorrerá a aceitação da corte entre eles, inviabilizando todo o processo de hibridação.
Gêneros Distintos Dotados do Mesmo Imprinting
 Para a prática da hibridação, necessitamos produzir previamente indivíduos dotados de Imprinting distinto dos da sua espécie e iguais aos da espécie que queremos acasalar. Sem esta providência, não ocorrerá à aceitação da corte por parte da fêmea e conseqüentemente a cópula. Para a obtenção de indivíduos pertencentes a gêneros distintos, contudo, dotados do mesmo imprinting, procedemos da seguinte maneira:

1. Escolhemos de qual gênero será a matriz utilizada entre os gêneros envolvidos nos acasalamentos. Os critérios de escolha serão sempre levando em conta qual dos gêneros envolvidos nos acasalamentos possuem matrizes dotadas de extrema docilidade e dedicação com a prole e tenha como característica uma seletividade alimentar ampla e diversificada para que possamos garantir com maiores chances a cria da prole.

2. Definido o gênero da matriz a ser usado nos cruzamentos, exemplo: Fêmea de Chorão (Sporophila leucoptera), precisa que esta aceite a corte do Curió (Oryzoborus angolensis) que é de gênero diferente. Para que aja a aceitação da corte do Curió pela Fêmea de chorão é necessário que esta tenha adquirido previamente o Imprinting do Curio, sendo assim a corte terá a sua eficiência reconhecida e a cópula ocorrerá normalmente resultando deste cruzamento indivíduos dotados de 50% de sangue de cada Gênero distinto, logo, será um Híbrido.
Criação de Imprinting de Gênero Diferente.
 Para obtenção de fêmeas de chorão ou qualquer outro gênero com Imprinting de Curió procedemos de duas maneiras distintas:

1. Colocamos os ovos do Chorão para serem incubados por fêmea de curió que crie com a presença do macho na mesma gaiola ou viveiro em plena harmonia. É necessário que os filhotes de chorão sejam tratados por ambos (macho e fêmea de Curió) para que se estabeleça na prole o Imprinting do gênero do Curió em ambos os sexos. Quando da apartação, os filhotes de Chorão já pialam de Curió e o surgimento do canto do Curió no filhote macho de Chorão ocorrerá tão logo se cumpra o “Período do Corrichar” principalmente se ocorrer Vetorização Dirigida do canto portado pelo Padreador Curió, que será usado mais tarde no acasalamento com a fêmea de Chorão. Estes cuidados aumentará o grau de eficiência do Cortejamento já que o Curió macho aceita Copular com qualquer fêmea de qualquer gênero desde que esta aceite a sua corte. Devemos durante todo o tempo em que manejamos os filhotes de Chorão dotados de imprinting de Curió evitar que tenham contato auditivo e visual com a sua espécie de origem genética sobre pena de corrermos o risco de perder todo o trabalho com o abandono do imprinting de Curió pelos filhotes que poderá faze-lo de imediato ou progressivamente com o decorrer do convívio.
Ao atingirem o amadurecimento sexual, as fêmeas de Chorão estarão aptas a serem cortejadas pelos Curiós, bem como o Chorão macho dotado de canto de Curió poderá com certa dificuldade ser aceito por fêmeas de Curiós jovens.

2. Após o nascimento dos filhotes de Chorão, encubados por mãe Chorona, transferimos os filhotes para “Amas” do Gênero Curió. Quanto mais sedo ocorrer esta transferência, maiores serão as chances de sucesso, em especial se utilizado como “Ama” um casal de Curiós. Não sendo possível, devemos manter próximo aos filhotes em regime de “Ama” um Curió vocalizando o dialeto do futuro Padreador. Todos os demais aspectos citados anteriormente se aplicam ao sistema com o uso de “Amas”.

Todo o método aqui descrito se aplica aos mais variados Gêneros desde que possuam compatibilidades Genéticas entre os Gêneros a serem utilizados. Vale a pena ressaltar que da mesma forma que alguns Curiós trocam de dialeto (Cabeças Moles) algumas fêmeas por escassez do espécime macho de seu gênero trocam de imprinting espontaneamente. Para tanto, basta que não mais escutem o canto conhecido como sendo do seu Gênero. Informo ainda que um número significativo de fêmeas jovens do Gênero Sporophila quando mantidas em criadouros do Gênero Oryzoborus trocam espontaneamente de imprinting como forma de preservação da sua espécie, fato constatado também na natureza quando ocorre a escassez do macho.
Cruzamentos Com F1-Híbridos (1/2 Sangue)











Ao obter-se indivíduos dotados de ½ sangue de Gêneros distintos, teremos cumprindo a primeira etapa da hibridação. Em seguida, prosseguimos com os cruzamentos dos F1-1/2 sangue com fêmeas de Curió para incorporação de genes responsáveis pelos alguns dos aspectos desejáveis de um Gênero no outro. A incorporação do timbre vocal e andamento melódico do Chorão (Sporophila leucoptera) no canto do Curió (Oryzoborus angolensis), foi conseguido desta forma, mediante a incorporação dos percentuais de sangue ideais para estas fixações no genótipo do novo Curió. Salientamos que os indivíduos F2; F3 etc. são únicos, produzidos em ambiente doméstico e só diferem dos que lhes originaram na qualidade genética que possui, com aprimoramento dos aspectos mencionados e mantendo o mesmo Fenótipo do Curió como conhecemos.
Muito se tem ainda para estudar nesta direção, contudo a falta de estímulo provocado pela não regulamentação e registro no IBAMA dos espécimes resultantes de hibridações, vêm colocando a margem da legalidade todo um trabalho de suma importância. Necessário se faz que todos os criadores praticantes de hibridações em seus mais variados níveis efetuem registros detalhados de seus cruzamentos para que não se percam informações que, sem dúvida, num futuro bem próximo, serão de grande valia para o conhecimento Ornitológico.
Transcrevo trecho pertencente a E-mail enviado ao grupo de discussão ornitofilia@grupos.com.br pelo Ornitólogo Roberto São Manoel, onde de forma objetiva define a questão.

“Os cruzamentos domésticos de espécies diversas não interessam e não devem interessar ao IBAMA, posto que não é tratado em nenhuma lei, já que se tratam de espécies novas, que não fazem parte da fauna silvestre, não estão em rota migratória, não pertencem ao meio ambiente e não se caracterizam como Recursos Naturais”.

Acho prematuro definir neste momento uma visão de futuro, contudo, se todos nós Ornitólogos brasileiros nos dispusermos a trabalhar, quem sabe seja este os novos caminhos que nos levará aos “Novos Tempos”.